
A cerimónia de entrega do Prémio Internacional Terras sem Sombra (TSS) 2026, decorreu no Auditório Municipal António Chainho, no dia 28 de março, permitiu uma reflexão coletiva sobre temas prementes, da cultura à sociedade, da economia ao ambiente. Um espaço de palavras, onde os premiados e os intervenientes partilharam perspetivas sobre o seu trabalho, o tempo presente e os desafios que o futuro coloca à sociedade. Uma iniciativa que contou com a parceria da Câmara Municipal de Santiago do Cacém
Esta iniciativa, reuniu cerca de 200 pessoas em torno dos premiados em cinco áreas: Música, Património, Serviço à Comunidade/Cooperação Internacional e Sons sem Sombra/Novos Talentos.
O presidente da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, Bruno Gonçalves Pereira, saudou o regresso do Festival Terras sem Sombra à cidade de Santiago do Cacém e referiu-se ao Concelho santiaguense como uma «terra que respira cultura», acrescentando que «o investimento na cultura, na biodiversidade e na música é uma aposta no futuro das nossas gentes».
A infanta D. Maria Francisca de Bragança, duquesa de Coimbra, convidada para presidir aos prémios Terras sem Sombra, destacou na sua intervenção a relação de apego ao Alentejo, sublinhando a singularidade de um território onde cultura, paisagem e comunidade se entrelaçam. «Porque estou aqui hoje? Porque entendo ser importante que iniciativas como esta cheguem a mais pessoas, em particular aos mais jovens. Há que criar proximidade e viver estes momentos, porque acredito que estar presente faz a diferença. Há que valorizar a beleza», enfatizou a jovem princesa, que recordou «ser importante compreender as nossas raízes, ouvir as pessoas, ir ao encontro da nossa história e identidade e criar pontes».
Na sua intervenção, José António Falcão, diretor-geral do TSS, destacou a profunda desigualdade entre as grandes áreas metropolitanas e o restante território nacional, criticando a ideia implícita de «cidadãos de primeira e de segunda», que resulta de uma distribuição desigual de recursos e representação política. Defendeu o reforço do investimento público nos territórios de baixa densidade e sublinhou o impacto dessas assimetrias em áreas como a educação, a saúde e a mobilidade, com especial incidência nos mais jovens. «Sem cultura e sem ciência, não há nenhuma espécie de desenvolvimento sustentável», afirmou, acrescentando que «o Festival Terras sem Sombra procura dar o seu contributo para transformar o Alentejo num território mais acessível, mais conhecido, mais coeso. O facto de existirem bons exemplos que devem ser conhecidos e, até, reconhecidos, levou à criação, em 2011, do Prémio Internacional».
Foram distinguidos:
Josep Maria Colom na categoria de Música, o pianista espanhol contou com o elogio em palco de Julio Morán: «O maestro Josep Colom nasceu na década de 1940, período que assistiu ao nascimento de extraordinários pianistas e de relevantíssimos concursos internacionais na pianística. A sua grandeza e humildade criaram um anti-currículo. É um homem discreto que fala com o coração e que nos escuta». O próprio Colom sublinhou revestir-se a atribuição do Prémio «de elevado significado para mim. Chega-me às mãos vindo de uma instituição de reconhecido mérito a vários níveis».
Carolino Tapadejo distinguido na categoria de Património, Coube ao jornalista Fernando Alves o discurso laudatório. Descrito pelo radialista como «um discreto herói português». Um homem corajoso, que enfrentou a voragem das celuloses e barrou a sua tentativa de expansão», destacou, recordando também o trabalho desenvolvido em prol da recuperação da memória judaica em Castelo de Vide. Ao receber o prémio, Tapadejo quis partilhá-lo com «quatro grandes figuras da minha terra: Garcia de Orta, Mouzinho da Silveira, José António Serrano e Salgueiro Maia», estendendo a homenagem «a todos os castelo-videnses que saíram para a diáspora».
Na categoria de Biodiversidade, a evocação de Lauriane Mouysset esteve a cargo do biólogo João Farminhão, que sublinhou o carácter de exceção do Alentejo, «numa relação antiga entre humanos e as mais de 13 mil espécies animais e vegetais aqui existentes. Hoje, é também um espaço em transformação que apresenta novos desafios. É neste contexto que a obra da investigadora francesa Lauriane Mouysset se inscreve, na interceção entre a economia, ecologia e a filosofia». A própria premiada deixou uma mensagem : «a crise da biodiversidade é um problema complexo que temos de abraçar. Pequenas alterações humanas sobre os territórios conduzem a impactos tremendos. Há que repensar as relações entre a sociedade e os sistemas naturais». Sublinhou ainda a importância de uma ciência feita por mulheres, concluindo que «a ciência não tem género».
O Prémio de Serviço à Comunidade/Cooperação Internacional distinguiu o diplomata checo Martin Pohl, numa evocação conduzida pelo economista e gestor José Nunes Liberato, que salientou a importância da «diplomacia no momento presente, caracterizado pela instabilidade internacional», lembrando tratar-se de uma área «muito esquecida» e defendendo que «há que tudo fazer para a dignificar, de forma a tornarmos o mundo melhor».
Na categoria Sons sem Sombra/Novos Talentos, foi distinguida a acordeonista francesa Judith Tahan, nascida em 2007, cujo itinerário artístico foi apresentado por Francisco Lobo Vasconcellos. Este assinalou o «notável percurso de Judith que, apesar da juventude, foi distinguida em concursos internacionais e apresentou-se como solista com orquestra. Paralelamente ao repertório clássico, participou em projetos de música tradicional. Prossegue atualmente estudos no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris». «Um exemplo para todos os jovens», concluiu.
Instituído em 2011, o Prémio Internacional Terras sem Sombra distingue figuras e instituições que, a partir de diferentes geografias e disciplinas, dialogam com o universo conceptual do Festival. A cerimónia de entrega dos galardões foi organizada em parceria com o Município de Santiago do Cacém e teve o apoio da Administração dos Portos de Sines e do Algarve.